A paranóia do apocalipse

O Apocalipse é o último livro da Bíblia cristã e, como todos os textos evangélicos, há uma nunca esclarecida confusão sobre quem o escreveu, em nome de quem, e com que fins. Para não entrarmos aqui numa discussão teológica, fora das nossas capacidades e do interesse dos leitores, basta dizer que o conceito de Apocalipse envolve o fim do mundo duma forma violenta. Há versões em grego e aramaico, atribuídas ora a Pedro , ora a João, sendo que não foram escritas por nenhum deles – são os chamados textos pseudoepigráficos, uma palavra que o eminente classista Eduardo Lourenço considera ser uma forma bonita de dizer falsificações.
O que interessa é que, durante os primeiros tempos do cristianismo – até aos séculos II e IV, mais ou menos – enquanto se discutia e decidia o que deveriam ser as Escrituras oficiais, o Apocalipse, isto é, o fim do mundo, era considerado como um acontecimento iminente. Depois, à medida que os séculos passavam e nenhuma das desgraças que aconteciam às civilizações tinham massa crítica suficiente para serem consideradas apocalipses, os crentes foram abandonando o temor dessa ameaça. Contudo, as grandes catástrofes, naturais ou provocadas por homens, ganharam o adjectivo “apocalíptico”, geralmente com exagero. Ao mesmo tempo, a ideia de Apocalipse foi por assim dizer dessacralizada: o fim do mundo não seria um acto divino, mas sim humano.