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O erro da clarividência

por Círculo do Graal, em 07.06.14

Dissertação para leitura no próximo domingo (9.00 h – 10.00 h, TMG – Lisboa)

Clarividência! Quanta glorificação se reúne em torno disso, e também quanta ironia se ouve dum lado, ao passo que do outro se apresenta uma curiosidade temerosa; o resto é respeitoso silêncio. Os próprios videntes andam orgulhosos por aí, como pavões pelo galinheiro. Julgam-se, em presunçosa humildade, agraciados por Deus, sentindo-se com isso elevados muito acima dos outros. Deixam-se de bom grado admirar por algo que na realidade lhes é tão estranho, como seu ambiente que muito pergunta.

Envolvem em sorriso inexpressivo sua ignorância real, de modo a aparentar sabedoria. É, no entanto, antes de tudo, a expressão que se tornou habitual, de sua ignorância diante de perguntas que exijam conhecimento próprio sobre o fenómeno.

 

Na realidade, eles não conhecem mais do que o martelo e o cinzel, com os quais a mão do artista molda qualquer obra. No entanto, aqui também são novamente apenas os próprios seres humanos que querem transformar os seus semelhantes, dotados de capacidades clarividentes, em algo diferente do que realmente são, prejudicando-os com isso gravemente.

Essa é a situação doentia que se encontra hoje por toda a parte. Na maioria dos casos esse “ver” é, sim, real, mas de modo algum algo de extraordinário que fosse digno de admiração e muito menos ainda de um calafrio, uma vez que na realidade devia ser algo muito natural. Natural, porém, será apenas quando surgir espontaneamente e, também, for deixado ao verdadeiro desenvolvimento, de modo sereno, sem ajuda alheia ou própria. Uma ajuda a tal propósito é tão condenável, quanto seria uma ajuda por ocasião do falecimento corpóreo.

 

A vidência, porém, só ganha valor pelo autêntico saber. Só o saber, exclusivamente, consegue dar segurança a essa faculdade natural e, concomitantemente, a sintonização certa com o rumo certo. Contudo, que isso falta à grande maioria de todas as pessoas clarividentes, pode-se desde logo verificar pela afoiteza ambiciosa que traz consigo a presunção, bem como pelo facto, desveladamente exposto e também prazerosamente expresso, de se considerarem sabidos.

E essa presunção de saber é exatamente aquilo que impede tais pessoas não só de progredir mais, mas que até lhes traz a perdição, levando-as, em seus esforços, a desvios que conduzem para baixo, em vez de para cima, sem que aquele que se considera mais sabido se aperceba de algo disso. Para tais, apenas como máximo auxílio, pode dar-se aqui e acolá que sua clarividência ou clariaudiência pouco a pouco se enfraqueça e se perca. Isso é salvação! Através de qualquer circunstância favorável que suceda para eles e das quais há múltiplas.

Observemos agora as pessoas videntes e a sua convicção errónea, que transmitem a outras pessoas. Exclusivamente a elas cabe a culpa de que até agora todo esse terreno pudesse ter sido lançado à lama como errado e incerto.

 

O que tais pessoas veem é, no melhor e mais avançado caso, o segundo degrau do assim chamado Além, se se quiser dividi-lo em degraus (não entendido por planos) e nos quais o da Luz seria, mais ou menos, o vigésimo, apenas para se obter uma imagem aproximada da diferença. Os seres humanos, porém, que realmente conseguem ver até um segundo degrau, pensam com isso realizar algo colossal. Aqueles, contudo, que apenas podem ver até o primeiro degrau, na maioria dos casos se enfatuam muito mais ainda.

Deve-se, pois, considerar que um ser humano, com seu dom máximo, na realidade pode ver sempre só até onde lhe permitir o seu próprio amadurecimento interior. Está atado aí ao seu próprio estado íntimo! Pela natureza da coisa, é-lhe simplesmente impossível ver algo diferente, ver realmente, que não seja sua própria igual espécie. Portanto, dentro do âmbito em que poderia locomover-se desimpedidamente depois de seu falecimento terreno. Não mais adiante, pois no momento em que ele transpusesse aquele limite do Além, que lhe prescreve o estado de seu próprio amadurecimento, teria de perder imediatamente qualquer consciência do seu ambiente. Por isso só, de modo algum conseguiria transpor este limite.

 

Se, no entanto, sua alma, ao sair, fosse levada por alguém do Além, pertencente ao próximo degrau mais alto, perderia ele logo a consciência naqueles braços ao transpor o limite para o degrau mais alto, isto é, adormeceria. Trazido de volta, poderia apenas lembrar-se sempre, apesar de seus dons clarividentes, até o ponto em que sua própria maturidade lhe permitiu olhar em redor, acordado. Portanto, não lhe adviria vantagem alguma, mas sim prejudicaria seu corpo de matéria fina.

Tudo quanto supõe ver além disso, sejam paisagens ou pessoas, jamais foi vivenciado por ele de modo realmente vivo, ou pessoalmente visto, mas trata-se aí apenas de imagens a ele mostradas e cuja linguagem também supõe ouvir. Jamais é a realidade. Tais imagens são aparentemente tão vivas, que ele mesmo não consegue distinguir entre o que apenas lhe é mostrado e o que realmente vivencia, porque o ato de vontade dum espírito mais forte pode criar tais imagens vivas.

Acontece assim que muitos clarividentes e clariaudientes julgam encontrar-se muito mais alto, em seus passeios no Além, do que realmente estão. E daí se originam tão numerosos erros.

 

Igualmente constitui um grande erro, quando alguns supõem ver ou ouvir Cristo, pois isto seria coisa impossível, segundo as leis da Criação oriundas da Vontade Divina, devido ao enorme abismo decorrente da ausência de espécie igual! O Filho de Deus não pode vir a uma sessão espírita, como quem vai a uma reunião de chá, a fim de ali embevecer as visitas distinguidamente, tampouco grandes profetas ou espíritos mais elevados.

No entanto, a espírito humano algum, ainda ligado à carne e ao sangue, é permitido movimentar-se tão segura e firmemente no Além, durante a vida terrena, a fim de poder ver ou ouvir tudo desveladamente e talvez até correr degraus acima. Tão simples a coisa não é, apesar de toda a naturalidade. Ela permanece ligada às leis incontornáveis.

E quando um clariaudiente ou um clarividente negligencia suas tarefas terrenas, por querer penetrar somente no Além, perde mais com isso do que ganha. Quando lhe chegar então a hora para amadurecer no Além, terá consigo uma lacuna que somente na Terra poderá preencher. Por isso não pode subir mais, fica preso até certo ponto e tem de voltar a fim de recuperar o que perdeu, antes de poder pensar numa continuação séria da escalada. Também aqui tudo é simples e natural; apenas sempre uma consequência indispensável do que ficou atrás, que jamais se deixa desviar.

 

Cada degrau de uma existência humana requer ser vivido realmente com toda a sinceridade, com plena capacidade de receção da respetiva época. Insuficiência nisso acarreta um afrouxamento que no caminho seguinte se fará sentir cada vez mais, produzindo finalmente uma rutura com a consequente ruína, se não se voltar a tempo, reparando o lugar defeituoso mediante renovado vivenciar, para que este se torne firme e seguro.

Assim é em todos os fenómenos. Infelizmente, porém, o ser humano adquiriu o hábito doentio de estender a mão sempre além de si mesmo, porque julga ser mais do que realmente é.

 

Abdruschin

                        

Dissertação, “O erro da clarividência”, da obra “Na Luz da Verdade - Mensagem do Graal”, volume II.

Leia a dissertação (Pág. 321) em formato PDF, sem custos, ao descarregar o livro.

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