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Desce da cruz

por Círculo do Graal, em 12.04.14

Dissertação para leitura no próximo domingo (9.00 h – 10.00 h, TMG – Lisboa)

“Se és Filho de Deus, então desce da cruz! Ajuda a ti mesmo e a nós!” De modo escarnecedor, ressoaram essas frases em direção ao Filho de Deus, quando sofreu na cruz sob os raios abrasadores do sol.

As criaturas humanas que assim bradavam, tinham-se em conta de extraordinariamente sagazes.

Escarneciam, triunfavam, riam cheias de ódio, sem terem sequer um motivo próprio para tanto; pois o sofrimento de Cristo não era evidentemente razão para sarcasmo e zombaria, e muito menos para risos. Desvanecer-se-lhes-ia isso, se apenas por um instante tivessem podido “ver” os fenómenos concomitantes nos reinos de matéria fina e espiritual, pois suas almas foram aí atadas pesadamente por milénios. Mesmo que o castigo não tenha podido se tornar logo visível na matéria grosseira, veio no entanto em todas as vidas terrenas posteriores, para as quais as almas pecaminosas foram obrigadas.

 

Os escarnecedores de então tinham-se em conta de espertos. Todavia, não puderam dar uma expressão mais acertada, como prova de sua estreiteza, do que com aquelas palavras, pois, aí reside a conceção mais pueril que se possa imaginar. Os que assim falam, longe se encontram de qualquer compreensão da Criação e da Vontade de Deus na Criação. Como é deprimente, portanto, o triste saber de que ainda hoje uma grande parte daqueles, que aliás, ainda creem em Deus e na missão de outrora de Seu Filho, pensam firmemente que Jesus de Nazaré poderia ter descido da cruz se apenas tivesse desejado.

Após dois mil anos, ainda a mesma sonolenta estreiteza, sem modificação para o progresso! Segundo a opinião ingénua de muitos que creem em Deus, Cristo, por ter vindo de Deus, devia ser ilimitado em suas atuações nesta Terra.

É uma expetativa oriunda da ingenuidade mais mórbida, uma crença resultante da preguiça de raciocinar.

 

Com a encarnação, o Filho de Deus também foi “posto sob a lei”, isto é, ele se submeteu com isso às leis da criação, à Vontade inamovível de Deus na Criação. Aí não há quaisquer alterações no que se refere ao corpo terrenal atado à Terra. Obedecendo à Vontade de Deus, Cristo sujeitou-se voluntariamente a essa lei, pois não veio para derrubá-la, mas para cumpri-la com a encarnação nesta Terra.

Por isso ele estava também ligado a tudo aquilo a que o ser humano terreno se acha ligado, e não podia, como Filho de Deus, descer da cruz, apesar de seu poder e de sua força de Deus, enquanto se encontrasse em carne e sangue de matéria grosseira. Isso equivaleria uma ao desmoronamento da Vontade Divina na Criação!

Esta Vontade porém, é perfeita desde os primórdios. E em tudo, não apenas na matéria grosseiro-terrenal, mas também na matéria fina, assim como no enteal e no espiritual, com todas as suas gradações e transições. Não diferente no Divinal e também no próprio Deus.

 

A atuação Divina, a força e o poder Divino apresentam-se de modo bem diferente do que nas demonstrações teatrais. Justamente o Divinal vive apenas no cumprimento absoluto da Vontade Divina, jamais querendo algo diferente. De modo idêntico, a criatura humana que tem elevada maturidade espiritual. Quanto mais desenvolvida estiver, tanto mais incondicionalmente se curvará às leis Divinas na Criação, de modo voluntário, alegre. Jamais esperará atos arbitrários que se encontrem fora das leis correntes da Criação, porque acredita na perfeição da Vontade Divina.

Se um corpo de matéria grosseira se encontra pregado na cruz, não conseguirá libertar-se sem ajuda alheia e sem auxílio de matéria grosseira. Isso, segundo a Divina Vontade Criadora, é lei que não se deixa transpor. Quem pensa de modo diferente e espera outra coisa, não crê na perfeição de Deus e na imutabilidade de Sua Vontade.

Que os seres humanos, não obstante seu suposto progresso no saber e na capacidade, ainda não se tornaram diferentes, que ainda se encontram lá onde estiveram outrora, testemunham ao bradarem novamente hoje:
“Sendo Ele o Filho do Homem, então pode, assim que quiser, desencadear as catástrofes que estão profetizadas.” Pressupõem isso como algo evidente. Isso significa, porém, com outras palavras: “Não conseguindo tal, então não é o Filho do Homem.”

No entanto, os seres humanos sabem muito bem que Cristo, como Filho de Deus, já indicara, a tal propósito, que ninguém, a não ser Deus-Pai exclusivamente, conhece a hora em que se iniciará o Juízo. É portanto dupla dúvida, quando as criaturas humanas falam dessa maneira. Dúvida quanto ao Filho do Homem e dúvida quanto à Palavra do Filho de Deus. Além disso, tal asserção por sua vez somente testemunha a falta de compreensão referente a toda a Criação. A total ignorância exatamente em tudo aquilo que é mais necessário para cada ser humano saber.

Se o Filho de Deus teve que se submeter à Vontade de Deus na Criação, ao se encarnar, não pode evidentemente o Filho do Homem se encontrar acima dessas leis. Um estar acima das leis é inteiramente impossível na Criação. Quem ingressa na Criação está com isso também sob a lei da Vontade Divina, que jamais se altera. Assim também o Filho de Deus e o Filho do Homem. Uma grande lacuna na possibilidade de compreensão de tudo isso advém apenas da circunstância dos seres humanos ainda não haverem procurado essas leis de Deus na Criação, não as conhecendo por conseguinte até hoje, tendo apenas encontrado aqui e acolá pequenos fragmentos disso, onde justamente tropeçaram.

 

Se Cristo realizou milagres que jazem muito além das possibilidades dos seres humanos terrenos, isso não justifica o pensamento de que não precisasse preocupar-se com as leis da Vontade de Deus que residem na Criação, passando por cima delas. Isso é impossível. Mesmo nos milagres, agia de plena concordância com as leis de Deus e não arbitrariamente. Com isso apenas provou que trabalhava com força Divina e não espiritual, sendo evidente, por conseguinte, que nos efeitos ultrapassasse de longe as capacitações humanas. Os milagres, no entanto, não estavam fora das leis da Criação; pelo contrário, enquadravam-se completamente às mesmas.

Tão atrasado ficou o ser humano em seu desenvolvimento espiritual, que nem sequer conseguiu pleno desabrochamento das forças espirituais a ele disponíveis, do contrário também realizaria feitos que chegariam ao milagroso, nos conceitos de hoje.

Com força Divina, porém, naturalmente podem ser criadas obras ainda bem diferentes que com força espiritual jamais poderiam ser alcançadas e que já por sua natureza se diferenciam das mais elevadas atuações espirituais. Contudo, todos os acontecimentos permanecem dentro dos limites da regularidade das leis Divinas. Nada vai além disso.

[…]

Somente todas as leis dos planos universais isolados, reunidas, resultam então outra vez em leis plenas, que foram colocadas pela Vontade Divina na Criação primordial, no reino espírito-primordial.

Por isso um germe do espírito humano tem de percorrer todos os planos do Universo, de maneira a vivenciar suas leis peculiares e vivificá-las dentro de si. Tendo colhido daí todos os bons frutos, terá então realmente adquirido consciência dessas leis e poderá, consequentemente, se as tiver utilizado direito e de acordo com a Vontade de Deus, entrar no Paraíso; será levado pelas leis em suas efetivações para lá, a fim de, partindo de lá, interferir conscientemente então, auxiliando e beneficiando nos planos parciais que se encontram abaixo dele, como missão suprema de cada espírito humano desenvolvido.

Aglomeração excessiva jamais poderá ocorrer, visto que os planos universais existentes podem ser estendidos ilimitadamente, pois pairam no infinito.

 

Assim se vai tornando cada vez maior o Reino de Deus, edificado e ampliado gradualmente pela força dos espíritos humanos puros, cujo campo de atuação terá de ser a Criação posterior, que poderão dirigir do Paraíso, visto eles mesmos já haverem percorrido antes todas as partes e assim chegado a pleno conhecimento delas.

Estas explicações estão aqui apenas para que não surjam equívocos devido às referências à força Divina e à força espiritual, já que de facto só existe uma força única proveniente de Deus, da qual se formaram as variações.

Quem conhece todos esses fenómenos, jamais manifestará esperança pueril de coisas que nunca poderão ocorrer, por se acharem fora de cada uma das leis da Criação. Assim também o Filho do Homem não desencadeará catástrofes com o estender de sua mão, as quais devam realizar-se imediatamente. Isso seria contrário às existentes e inalteráveis leis da natureza.

 

O espiritual é mais móvel e mais leve, portanto também mais rápido do que o enteal. Por isso o enteal necessita de mais tempo do que o espiritual na efetivação. Por essa razão, naturalmente, o enteal, isto é, o acontecimento elementar, terá que concretizar-se também mais tarde do que o espiritual. da mesma forma, através dessas forças, a matéria fina se move mais depressa do que a matéria grosseira. Todas as leis devem ser cumpridas, não podem ser contornadas nem rompidas.

Todas essas leis são conhecidas na Luz, e o envio dos emissários realizadores ou de ordens especiais é disposto de tal modo, que os efeitos finais acontecem como por Deus é desejado.

Um dispêndio de grandeza, incompreensível aos seres humanos, tornou-se necessário para o atual Juízo. Funciona tudo tão certo, no entanto, que na verdade não ocorrem retardamentos… até chegar nos pontos onde a vontade humana deve colaborar. Somente os seres humanos insistem, sempre, com tola obstinação, em se manter fora de cada realização ou até mesmo em se colocar no caminho, impedindo perturbadora e hostilmente… com presunção que prende à Terra.

 

Após a grande falha das criaturas humanas, durante a existência terrena do Filho de Deus, isso agora foi felizmente levado em conta. Os seres humanos com seu falhar somente podem dificultar o caminho terrestre do Filho do Homem apenas até certo tempo, de modo que ele terá que andar por atalhos, volteando, mas não conseguem deter os acontecimentos desejados por Deus, ou até mesmo alterar de algum modo o desfecho predeterminado, pois já lhes foi tirado o apoio das trevas na retaguarda, supridor de forças para as tolices, enquanto as muralhas de seu atuar intelectivo, por trás das quais, acobertados, ainda atiram flechas venenosas, desmoronarão rapidamente sob a pressão da Luz em avanço.

Precipita-se então o descalabro sobre eles, e nenhuma graça deverá ser concedida, depois do mal que seu tramar sempre de novo criou funestamente. Assim, o dia, ardentemente almejado por aqueles que se esforçam para a Luz, não chegará nem uma hora mais tarde do que deve ser.

 

Abdruschin

                        

Excerto da Dissertação, “Desce da cruz”, da obra “Na Luz da Verdade - Mensagem do Graal”, volume II.

Leia a dissertação (Pág. 263) em formato PDF, sem custos, ao descarregar o livro.

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