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Dissertação para leitura no próximo domingo (9.00 h – 10.00 h, TMG – Lisboa)

Quando se deve falar em conceito humano e em conceção humana, a que também se acha ligada a justiça terrena, não se deve esperar que isso equivalha à Justiça Divina ou que sequer se lhe aproxime. Pelo contrário, deve-se infelizmente dizer que na maior parte dos casos existe até uma diferença tão grande como o céu. Nessa confrontação a expressão popular “tão grande como o céu” é apropriada no mais verdadeiro sentido.

Essa diferença poderia ser explicada muitas vezes em face do raciocínio da humanidade, limitado ao espaço e ao tempo, o qual em sua estreiteza não consegue reconhecer o erro propriamente e separá-lo do certo, uma vez que isso raramente é reconhecível de modo claro por exterioridades, mas se encontra pura e simplesmente no mais íntimo de cada pessoa, para cujo julgamento, rígidos parágrafos de lei e sabedoria escolar não bastam. É entristecedor, porém, que por esse motivo tantos julgamentos dos tribunais humanos tenham de estar em oposição direta à justiça Divina.

 

Não é o caso de se falar dos tempos da Idade Média nem das épocas tristes das torturas angustiosas, bem como das chamadas cremações de bruxas e de outros crimes da justiça. Tampouco devem ser mencionadas as inúmeras cremações, torturas e assassínios que entram no débito das comunidades religiosas, devendo em seus efeitos recíprocos atingir os praticantes de modo duplamente pavoroso, porque abusaram aí do nome do Deus perfeito, cometendo em Seu nome todos aqueles crimes, como supostamente agradáveis a Ele e, com isso, cunhando-O perante os seres humanos como responsável por aquilo.

Abusos e barbaridades que não deveriam ser esquecidos tão depressa, mas que se devia fazer voltar à memória como advertência, sempre de novo, também nos julgamentos de hoje, principalmente porque os que outrora assim agiam, cometiam tais incongruências aparentando a melhor boa-fé e o mais pleno direito.

 

Muito mudou. Contudo, virá o tempo, evidentemente, em que se voltará a olhar com semelhante horror para a justiça atual, como nós, hoje, encaramos os tempos acima citados, os quais, segundo o nosso atual reconhecimento, encerram tanta injustiça. Esse é o curso do mundo, e um certo progresso.

Olhando-se mais profundamente, porém, o aparentemente grande progresso entre o tempo de outrora e o de hoje encontra-se apenas nas formas externas. O poder absoluto de um só, profundamente incisivo na existência inteira de tantas pessoas na Terra, continua frequentemente ainda o mesmo, sem a responsabilidade pessoal daquele. Também não mudaram muito os seres humanos, nem os motivos de suas ações. E onde a vida interior ainda é a mesma, iguais são também os efeitos recíprocos que trazem em si o Juízo Divino.

 

Se a humanidade subitamente se tornasse vidente a tal respeito, a consequência somente poderia ser um único grito de desespero. Um horror que se estenderia sobre todos os povos. Ninguém levantaria a mão contra o seu semelhante com recriminações, uma vez que cada um, individualmente, sentiria sobre si de algum modo o peso de idêntica culpa. Não tem nenhum direito de enfrentar a outrem repreensivelmente nisso, uma vez que até então cada qual julgou erroneamente apenas segundo as aparências externas, não dando importância a toda a vida real.

Muitos se desesperariam consigo mesmos no primeiro facho de luz, se este pudesse penetrar neles sem estarem preparados, ao passo que outros, que até agora jamais se deram tempo para refletir, deveriam sentir intuitivamente incomensurável exasperação por haverem dormido durante tanto tempo.

 

Por isso é, pois, oportuno o estímulo para a reflexão serena e para o desenvolvimento da justa capacidade de julgamento próprio, a qual repele qualquer inclinação cega a opiniões alheias e somente assimila, pensa, fala e age de acordo com a sua própria intuição!

Jamais o ser humano deve esquecer-se de que ele completamente só terá de responder por tudo aquilo que ele intui, pensa e faz, mesmo que o tenha aceitado de outrem de modo incondicional!

Feliz aquele que alcança essa altura, indo de encontro a cada parecer de modo criterioso, para então agir segundo os suas próprias intuições. Assim não coparticipa da culpa, como milhares que muitas vezes se sobrecarregam com um carma pesado, apenas por leviandade e sensacionalismo, por preconceitos e difamação, o que os leva a regiões cujos sofrimentos e dores jamais necessitariam conhecer. Com isso, frequentemente, já na Terra se deixam reter de muito do que é realmente bom, perdendo com isso não somente muito em benefício próprio, mas põem em jogo assim talvez tudo, sua existência inteira.

 

Assim foi com o ódio inflamado e insensato contra Jesus de Nazaré, cujo motivo propriamente poucos apenas dos malévolos vociferadores conheciam, ao passo que os demais se entregavam simplesmente a uma fúria totalmente ignorante e cega, gritando em conjunto, sem que jamais tivessem, pessoalmente, estado em contacto com Jesus. Não menos perdidos estão também todos aqueles que baseados em opiniões erróneas de outros, afastaram-se dele e nem sequer ouviram suas palavras, e muito menos ainda se deram ao trabalho de um exame criterioso, com o que, não obstante, poderiam ter reconhecido finalmente o valor.

Somente assim pôde amadurecer a desvairada tragédia que colocou sob acusação de blasfémia exatamente o Filho de Deus, levando-o à cruz. Ele, o único que promanava diretamente de Deus e lhes anunciava a Verdade sobre Deus e a Sua Vontade!

Esse fato é tão grotesco, que nele se patenteia com ofuscante clareza toda a mesquinhez das criaturas humanas.

 

E de lá para cá a humanidade não progrediu interiormente, pelo contrário, só regrediu, não obstante todas as outras descobertas e invenções.

Apenas o que progrediu, e isso em função dos êxitos exteriores, foi a presunção de sempre se querer saber mais, a qual foi gerada e cultivada exatamente pela estreiteza, sendo, aliás, uma característica específica da estreiteza.

E nesse solo, que durante dois milénios se foi tornando cada vez mais fértil, é que brotaram as conceções humanas atuais, que atuam de modo decisivo e devastador, enquanto as criaturas humanas, sem pressentirem, enleiam-se a si mesmas nisso, cada vez mais, para sua própria horrível fatalidade.

Quem nisso tudo, através de falsas conceções, atrai para si, muitas vezes de boa-fé, efeitos maus de uma correnteza recíproca, agindo portanto contra as leis Divinas, isso até agora raras vezes se tornou claro a alguém. O número é grande, e muitos, em sua vaidade, sem o pressentir, estão inclusive orgulhosos a respeito disso, até que um dia terão de ver a Verdade com angustioso pavor, a qual é tão diferente daquilo que sua convicção os deixou imaginar.

Mas então será tarde de mais. A culpa com que se sobrecarregaram terá de ser remida em luta penosa consigo mesmos, muitas vezes por decénios.

 

Longo e difícil é o caminho até o reconhecimento, quando uma pessoa perdeu a oportunidade favorável da existência terrena e se sobrecarregou, até intencionalmente, ou por ignorância, ainda com novas culpas.

Desculpas, aí, jamais são consideradas de importância. Cada um pode sabê-lo, se quiser!

Quem sentir o anseio de reconhecer uma vez a Justiça Divina no decurso dos efeitos recíprocos, em contraste com conceções terrenas, este se esforce em observar algum exemplo da vida terrena a respeito, examinando aí de que lado se acha realmente o certo e o errado. Muitos se lhe apresentarão, diariamente.

Em breve sua própria capacidade de sentir intuitivamente se desenvolverá mais acentuada e mais viva, para lançar fora, finalmente, todos os preceitos aprendidos de conceções falhas. Surge assim um sentimento intuitivo de justiça, que pode confiar em si mesmo, porque, no reconhecer de todos os efeitos recíprocos, acolhe a Vontade Deus, nela está e atua.

 

Abdruschin

                        

Dissertação, “Conceito humano e vontade de Deus na lei da reciprocidade”, da obra “Na Luz da Verdade - Mensagem do Graal”, volume II.

Leia a dissertação (Pág. 282) em formato PDF, sem custos, ao descarregar o livro.

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