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Falecido

por Círculo do Graal, em 30.12.13

Dissertação para leitura no próximo domingo (9.00 h – 10.00 h, TMG – Lisboa)

Solitária e sem compreender nada se encontra uma alma no recinto de morte. Sem compreender nada, porque o ser humano que jaz no leito se recusou, durante a sua vida terrena, a acreditar na continuação da vida após deixar o corpo de matéria grosseira, jamais pensando nisso com afinco, e zombando de quantos falavam a tal respeito.

Perplexo, olha em redor. Vê a si próprio no leito de morte, vê à sua volta pessoas conhecidas que choram, ouve as palavras que elas dizem, e intui também decerto a dor que elas sentem nas lamentações por ele haver morrido. Tem vontade de rir e clamar que ainda vive! Chama! E nota, admirado, que não o ouvem. Repetidamente chama alto e cada vez mais alto. As pessoas não escutam, continuam a lamentar. Medo começa a brotar nele. Pois ele ouve a sua própria voz bem alto e sente também distintamente o seu corpo.

Mais uma vez grita angustiadamente. Ninguém lhe dá atenção. Olham, chorando, para o corpo inerte que ele reconhece como sendo o seu, e ao qual, no entanto, considera de repente como sendo algo estranho, que não lhe pertence mais, pois se encontra com seu corpo ao lado, livre de toda a dor que até então sentia.

 

Com amor chama então o nome de sua mulher, ajoelhada ali rente ao que até agora era seu leito. Mas o choro não cessa, nenhuma palavra, nenhum movimento denota que ela o ouviu. Desesperado, aproxima-se dela, sacudindo-a rudemente pelo ombro. Ela não percebe. Ele não sabe, pois, que tocou apenas no corpo de matéria fina da esposa, sacudindo-o, e não no de matéria grosseira, e que sua esposa, que igualmente a ele nunca pensou existir algo mais do que o corpo terreno, também não podia sentir o toque em seu corpo de matéria fina.

Um indizível sentimento de medo deixa-o estremecer. A fraqueza do desamparo oprime-o até o chão, sua consciência desaparece.

Uma voz que ele conhece o faz voltar a si lentamente. Vê então aquele corpo que ele usava na Terra, rodeado de flores. Tem vontade de sair dali, mas lhe é impossível desenvencilhar-se daquele corpo frio e imóvel. Percebe nitidamente que ainda se acha ligado a ele. E eis que torna a ouvir a voz que o despertara do dormitar. Trata-se de seu amigo que conversa com outra pessoa. Ambos trouxeram uma grinalda mortuária e enquanto a depositam, falam. Ninguém mais está junto.

 

O amigo! Quer se fazer notar por ele e pelo outro, que com o amigo muitas vezes fora seu querido hóspede! Tem de dizer-lhes que nele a vida, esquisitamente, ainda continua, que ainda pode ouvir o que as pessoas falam. Chama! Todavia, calmamente o seu amigo se volta para o acompanhante e continua a falar. Mas o que ele fala lhe perpassa como um susto através de seus membros. É esse o seu amigo? Assim ele fala dele agora.

Escuta estarrecido, as palavras daquelas pessoas com as quais tantas vezes bebeu e riu, que só elogiavam enquanto comiam à sua mesa e frequentavam sua casa hospitaleira.

Foram-se; chegam outros. Como podia agora reconhecer as criaturas humanas! Tantas a que tinha em alta consideração, agora só lhe despertavam asco e ira, enquanto que outras a quem nunca dera atenção, de bom grado teria apertado a mão com gratidão. Mas não o ouviam, não o sentiam, apesar dele se exaltar, gritar, a fim de provar que está vivo!

Com enorme acompanhamento conduziram então o corpo à sepultura. Estava sentado no próprio ataúde. Amargurado e desesperado, agora somente ainda podia rir, rir! O riso, porém, logo deu lugar ao mais profundo desalento, e imensa solidão lhe sobreveio. Cansou-se, dormiu.

 

Ao acordar, escuro estava à sua volta. Não sabia quanto tempo havia dormido. Percebeu, todavia, que já não podia mais estar ligado como até então ao seu corpo terreno, pois estava livre. Livre na escuridão que lhe pesava de modo estranhamente opressor.

Chamava. Nenhum som. Não ouvia sua própria voz. Gemendo, caiu para trás. Contudo, bateu aí fortemente com a cabeça numa pedra pontiaguda. Quando, após longo tempo, tornou a acordar, havia ainda o mesmo negror, o mesmo silêncio lúgubre. Queria saltar, mas os membros estavam pesados e recusavam-se a servi-lo. Com toda a força, proveniente do mais angustiado desespero, levantou-se e cambaleou tateando para lá e para cá. Muitas vezes caía no chão, feria-se, batia-se pela direita e pela esquerda, em pontas e cantos, mas algo não o deixava parar, pois um forte impulso o forçava continuamente a avançar às apalpadelas e procurar. Procurar! Mas o quê? Seu pensar estava confuso, cansado e sem esperanças. Procurava algo que não podia compreender. Procurava!

 

Algo o impulsionava para diante, sempre para diante! Até novamente cair, para de novo se levantar e continuar a andar. Passaram-se assim vários anos, decénios, até que finalmente lhe sobrevieram lágrimas, soluços, deixando estremecer-lhe o peito e… um pensamento se desprendeu uma súplica, qual grito de uma alma exausta, desejando um fim para o sombrio desespero.

O grito do mais desmedido desespero e da dor sem esperança trouxe, no entanto, o nascimento do primeiro pensar no desejo de sair daquele estado. Procurou reconhecer o que foi que o conduziu a esse estado pavoroso, o que foi que tão cruelmente o obrigou a perambular pela escuridão. Apalpou em redor: rochas ásperas! Seria a Terra ou talvez, sim, o outro mundo no qual jamais pôde acreditar?

O outro mundo! Então estava morto terrenamente, e no entanto vivia, se é que queria chamar de viver a esse estado. O pensar tornou-se imensamente difícil. Assim cambaleava adiante, procurando. Anos decorreram novamente. Para fora, fora dessa escuridão! Esse desejo tornou-se um impulso impetuoso, do qual se formou saudade. Saudade, no entanto, é o sentimento intuitivo mais puro que se destaca do impulso grosseiro, e da saudade brotou timidamente uma oração.

 

Essa oração de saudade eclodiu por fim dele, semelhante a uma fonte, e silenciosa e benéfica paz, humildade e sujeição entraram assim em sua alma. E quando ele se levantou para continuar sua caminhada, eis que uma correnteza de intenso vivenciar percorreu seu corpo, pois crepúsculo agora o rodeava, de súbito podia ver!

Longe, bem longe distinguiu ele uma luz, igual a um archote que o saudava. Jubilosamente estendeu os braços naquela direção; tomado de profunda felicidade prostrou-se novamente e agradeceu, agradeceu, com o coração a transbordar, Àquele que lhe concedeu luz! Com nova força caminhava então em direção a essa luz, que não se aproximava dele, mas que ainda assim esperava alcança-la, após tudo o que experimentara, mesmo que levasse séculos. O que agora lhe sucedeu podia repetir-se e conduzi-lo finalmente para fora do amontoado de pedras, para um país mais cálido e raiado de luz, se humildemente implorasse por isso.

“Meu Deus, ajuda-me nisso!” brotou aflitamente do coração cheio de esperanças. E que prazer, novamente ouviu sua voz! Mesmo que inicialmente apenas fraca, contudo ouvia! A felicidade disso deu-lhe novas forças e esperançoso tornou a seguir adiante.

 

Assim o início da história duma alma no mundo de matéria fina. A alma não poderia ser denominada ruim. Na Terra até era considerada muito boa. Um grande industrial, muito atarefado, esforçado em cumprir fielmente todas as leis terrenas.

A respeito desse processo um esclarecimento ainda: o ser humano que durante sua existência terrena nada quer saber que depois da morte ainda há vida e que será obrigado a responsabilizar-se por todas as suas ações, cego e surdo será na matéria fina, quando tiver que se trasladar. Somente enquanto permanecer ligado, por dias ou semanas, ao seu corpo de matéria grosseira que deixou, consegue temporariamente também perceber o que acontece à sua volta.

Tão logo, porém, fique livro do corpo de matéria grosseira em decomposição, perde tal possibilidade. Não ouve nem vê mais nada. Não se trata dum castigo, mas de algo absolutamente natural, porque não quis ver nem ouvir nada do mundo de matéria fina. Sua própria vontade, capaz de dar forma própria e imediata à matéria fina, é que impede que seu corpo de matéria fina possa ver e também ouvir. Até que se manifeste, lentamente, uma alteração nessa alma. Se isso, agora, demorar anos, decénios, talvez séculos, é assunto de cada pessoa. À sua vontade, lhe é deixado integralmente. Também auxílio só lhe advém, quando ela própria o almejar. Não antes. Nunca será forçada a isso.

A luz que essa alma, que adquiriu visão, saudou com tamanha alegria, sempre esteve lá. Só que antes ainda não podia vê-la. É mesmo mais clara e mais forte do que a alma, até então cega, inicialmente a vê. O modo pela qual a vê, se forte, se fraca, depende apenas dela exclusivamente. Ela não vem absolutamente ao seu encontro, mas está lá! Poderá usufrui-la a qualquer momento, bastando desejá-la de maneira humilde e sincera.

 

Mas isso que aqui esclareço só se refere a essa espécie de almas humanas. Não, porém, a outras. Nas próprias trevas e em suas planícies não se encontra a luz. Lá não é válido que aquele, que progride em si, possa de repente ver a luz, mas sim, para isso, primeiramente tem de ser conduzido para fora do ambiente que o retém.

Certamente a situação dessa alma, aqui apreciada, já é de ser qualificada de angustiosa, principalmente porque está tomada de grande pavor e não tem em si qualquer esperança, contudo ela mesma não havia desejado de outra forma. Recebe apenas aquilo que forçou para si. Não quis saber nada da vida consciente após o falecimento terreno. Com isso a alma não pode eliminar para si a continuação da vida, pois a esse respeito ela não pode dispor, porém constrói para si mesma uma esfera estéril de matéria fina, paralisa os órgãos sensoriais do corpo de matéria fina, de modo a, na matéria fina, não poder ver nem ouvir, até que… ela finalmente se modifique.

 

São essas as almas que hoje são vistas aos milhões sobre a Terra, ainda classificáveis de corretas, não obstante nada quererem saber da eternidade ou de Deus. As de má vontade, naturalmente, passam pior; no entanto, delas aqui não se falará, mas apenas das assim chamadas criaturas corretas.

Quando, pois, se diz que Deus estende Sua mão em auxílio, isso se dá na Palavra que Ele envia às criaturas humanas, na qual lhes mostra de que modo podem libertar-se da culpa em que se emaranharam. E Sua graça se acha de antemão em todas as grandes possibilidades outorgadas aos espíritos humanos na Criação para utilização. Isso é tão imenso, como não pode o ser humano de hoje imaginar, porque jamais se ocupou com isso suficientemente a sério, pois onde tal se deu, foi apenas de modo pueril ou para fins de vaidosa auto-elevação!

 

 

Abdruschin

                        

Excerto da Dissertação, “Falecido”, da obra “Na Luz da Verdade - Mensagem do Graal”, volume II.

Leia a dissertação (Pág. 179) em formato PDF, sem custos, ao descarregar o livro.

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