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Justiça e Sofrimento

por Círculo do Graal, em 11.10.12

E o que fora curado não sabia quem era; porque Jesus se havia retirado, em razão de, naquele lugar, haver grande multidão.

Depois, Jesus encontrou-o no templo, e disse-lhe:

Eis que já estás são; não peques mais, para que te não suceda alguma coisa pior.

E aquele homem foi e anunciou aos judeus que Jesus era o que o curara.

 

 S. João

“Bíblia - Novo Testamento 5-13:15”

 

 

O alvorecer trouxe o canto das aves depois de uma noite silenciosa entre o piar do mocho e o cantar das cigarras, sussurros de sons notívagos; o canto e o voo alegre e ladino, emprestando aos humanos a alegria e a singeleza da obra já feita por tantos e prestimosos seres que, diligentemente, mantinham a harmonia e a beleza.

Alphek mirava a distância, que se unia entre o mar e o céu no horizonte, no balcão da sala de visitações, amplamente aberto em arcos sobre os penhascos. A paisagem era magnífica, o espelho de água transluzia os reflexos do sol matutino, o ar estava fresco e límpido, as ondas envolviam-se nas arribas num som mágico de cadência ritmada e formas brancas de espuma volátil.

Um toque na porta maciça de madeira, incrustada com detalhes de ferro, e um pedido de licença para entrar fez-se ouvir, Sikar parou frente à porta entreaberta e aguardou a ordem de seu mestre.

 

- Entra Sikar, aguardava a tua visita.

 

- Bom dia Mestre, a manhã está radiosa e convida ao passeio.

 

- Hoje vou dar-te conhecimento de uma das situações com que se deparam os seres humanos no outro lado do mar. Aproveitaremos para desfrutar com os nossos queridos enteais o passeio.

 

Mais uma vez as escadas milenares, desgastadas que eram nos seus degraus pelo passar do tempo, foram usadas. Como sempre o povoado fervilhava de vida e movimento nos seus afazeres domésticos, que também se faziam necessários para o contributo quotidiano do bem-estar e provimento do corpo e da alma.

Os dois sacerdotes enveredaram pelo caminho que conduzia aos campos verdes e floridos que se estendiam à sua frente, beirando as escarpas que dividiam a terra do mar

 

- Uma das questões com que deparei nas minhas viagens foi o muito sofrimento dos seres humanos e a pergunta, umas vezes sincera e ansiando por resposta, outras com mal escondido despeito e vontade dolosa: Porque tanto sofrimento se Deus é perfeito e justo?

Sikar baixou o olhar e os pensamentos afluíram num misto de ansiedade e expetativa do que seu Mestre diria.

 

- Não é fácil para uma pessoa em sofrimento e sem entender as correlações da vida compreender que o seu estado se deve só a ela própria, principalmente, quando esse sofrimento é causado por terceiros sem sua intervenção direta.

Só a boa vontade, fé na justiça e perfeição do Criador e o conhecimento das Suas leis pode amenizar tal sofrimento e resgatá-lo.

 

Alphek pausou e o seu olhar percorreu o horizonte buscando o auxílio dos guias para que a sua explanação fosse correta e absorvida integralmente.

 

-O Criador muniu o ser humano com uma ferramenta indispensável à sua evolução nas planícies da matéria onde peregrina para seu benefício.

- O livre arbítrio!

A capacidade de tomar decisões e escolher o caminho que mais se coaduna com ele, tomar a iniciativa da ação e construir uma sociedade para seu benefício e de seu próximo.

O ser humano é livre e tem o intelecto para gerir essa liberdade, o poder criativo para se rodear de beleza e bem-estar, o poder organizativo para que a sociedade possa, dinamicamente, criar as condições úteis ao progresso material e espiritual. De muito somos capazes e nessa capacidade devemos equilibrar o nosso comportamento sentimental, nas emoções e afetos que, obrigatoriamente, nos conduzirão na nossa relação interpessoal.

A nossa liberdade termina onde começa a liberdade do próximo e é nesta junção de atitudes e respeito que a construção do tecido vivo, que é a sociedade, se deve pautar. Somos seres sociais de origem, embora independentes e autónomos pela própria natureza da nossa espiritualidade.

Justiça e Amor equilibram a nossa atuação e vivência!

 

O olhar límpido e penetrante do Sumo-sacerdote poisou no seu pupilo a avaliar o efeito de suas palavras.

Sikar estava compenetrado a ouvir as palavras do mestre e ao olhar deste deu um sorriso de cumplicidade e aquiescência pelo que o mestre continuou.

 

- E, como tal, a dualidade mantém a sua atuação, mesmo nos critérios de escolha material para opção de vida… retorquiu Sikar, fazendo um gesto abrangente com as suas mãos.

 

- Verdade, retorquiu Alphek, assim também nos efeitos do livre arbítrio!

 

- Lei da Reciprocidade!

O homem tem a opção de escolha e decisão, no entanto, a responsabilidade dessa decisão também lhe pertence, é inerente ao livre arbítrio. Só não é responsável quem não tem o livre preceito de decisão, não é o caso dos humanos que o têm por origem, no seu gene, mesmo escravo o homem é livre espiritualmente.

As ações obrigam a resgate, assim é inserido na ação da Vontade Divina através de Suas Leis que governam as Criações de modo equilibrado e justo e o ser humano não está isento dessa Lei!

Livre só é o ser humano que vive e atua na Vontade de Deus, no cumprimento da Lei: se o ser humano cumpre a lei dos homens, porque não cumpre a Lei de Deus?

A Justiça Divina e o cumprimento da Lei é inexorável, cumpre-se, no entanto, o Amor de Deus permite ao ser humano resgatar as suas ações através da sua boa vontade, assim ele o queira, assim está à sua disposição. O ser humano carrega o fruto das suas ações, ninguém o pode aliviar ou remir, só ele e a quem ele ofendeu.

 

- É interessante como os acontecimento se engrenam numa mescla de ação – reação, capacidade de resgate e novos acontecimentos que conduzem a novo ciclo para nova atuação…

Disse Sikar olhando o seu mestre…

 

- A formação do ser humano passa exatamente por esses ciclos que o conduzem à experiência da vida, assim ele saiba aproveitar essa experiência no sentido do seu próximo, justiça e amor, o ciclo fecha-se depois de estar concluído e manter-se-á aberto até tudo estar resgatado; repito, as leis divinas que regem os universos, concomitantemente a nós espíritos humanos, cumprir-se-ão independentemente das filosofias e modo de estar das sociedades humanas e o desejo individual!

A lei não muda pelo desejo ou anseio humano, mas cumpre o que lhe está destinado. O ser humano, pela sua ação, conduz o seu destino!

 

Alphek abria os horizontes de seu conhecimento para o discípulo que o ouvia atentamente.

 

- No entanto, cada vida terrena, não é suficiente para enquadrar toda esta sinfonia de acontecimentos, que pela sua característica é complexa.

 

- Tens razão Sikar, os acontecimentos de uma vida terrena não são suficientes para abarcar os milénios de legado cultural e experiencial da história humana, muito há ainda a experienciar.

Não há lacunas no desenrolar das leis da Criação. A tudo o Onipotente precaveu, Justiça e Amor em Equilíbrio!

 

Alphek caminhava em passo cadenciado mas firme e Sikar acompanhava-o alegremente por veredas e caminhos rodeados de uma natureza exuberante e viva de movimento. Os seres enteais, que eles tanto se alegravam, andavam num corrupio de lá para cá, esvoaçavam, espreitavam, ou corriam pelos campos verdes… animais silvestre acompanhavam essa correria sem que os humanos compreendessem o porquê daqueles movimentos, aparentemente, desordenados, as aves esvoaçavam febrilmente dobrando os seus cantos numa sinfonia de vida e alegria.

Em tudo o equilíbrio fazia jus à Vontade do Criador!

 

Depois de um trecho do caminho em silêncio a absorver a alegria envolvente Sikar disse:

 

- É necessário muita presença e um ser evoluído espiritualmente para abarcar os conhecimentos que a Criação guarda.

 

-Sikar, guarda os conhecimentos com amor e devoção e passa-os ao teu semelhante, o que eles fizerem desse legado a eles diz respeito, é imperdoável quem guarda o conhecimento para si sem o partilhar.

 

- O libre arbítrio e a Reciprocidade por si só não conduzem, ainda, ao cabal conhecimento e elucidação da pergunta formulada pelos seres humanos: Porque tanto sofrimento se Deus é perfeito e justo?

Para isso temos que introduzir o último elemento da tríade:

 

- A Reencarnação!

O Onipotente é Justo e Bondoso e permite que o ser humano possa resgatar o fruto das suas ações, que também servem para a sua formação, através do tempo. Podemos, consecutivamente, criar ciclos de experiência nas ações e resgatar o que de mal foi feito ou cimentar o que de bom também foi feito, a dualidade da vida em plena florescência na Lei. È natural que o ciclo de uma vida terrena nada é para o efeito temporal da Criação. Fala-se em infinito para o espaço físico e para o tempo e é nesses conceitos que o ser humano se desenvolve. Somos parte integrante e, de certo modo, privilegiado, neste imenso tear da Criação, ainda não tomámos consciência do nosso lugar nesta maravilhosa obra de nosso Criador, é tempo de despertar e evoluir espiritualmente para ocuparmos o lugar que a nós pertence, para alegria de todos os seres que connosco partilham o mesmo lar!

A Criação não se resume ao nosso espaço temporal, para lá outro espaço existe e é nessa multiplicidade de espaços que nós vivemos num ciclo de encarnação e reencarnação. Não existe a morte, como fator decisivo neste ciclo, mas sim um fenecer num plano e o renascer noutro.  Morte é um termo definitivo e não se enquadra no Amor Divino, a não ser que o ser humano tome por opção de ação esse caminho, mesmo assim, o ser humano tem imensos avisos e exemplos para desvio nas suas múltiplas peregrinações de vida pelas planícies da matéria.

 

- O ser humano está no caminho e tem a decisão de opção, ou segue para cima, em direção à Luz, ou para baixo, em direção às trevas, o caminho é o mesmo. Assim como ele decidir, assim sobre ele virá o fruto da decisão. Alegria ou sofrimento!

O livre arbítrio permite-nos tomar o nosso destino em nossas mãos pela livre decisão, a Reciprocidade permite-nos receber o fruto dessa decisão pela responsabilidade e a Reencarnação permite-nos resgatar ou usufruir os efeitos da responsabilidade pela experiência e vivência da ação através do tempo.

O Criador não castiga, cumpre-se a Lei!

 

Novamente o silêncio foi cúmplice do estar daqueles seres que irmanados no mesmo sentido vibravam com o meio envolvente. A natureza cobria-se de manto escuro num ciclo de renascer a noite e cumprir-se o dia, tal qual o diálogo sobre a reencarnação, após o dia a noite, após a noite o dia, para gáudio e vida dos seres que vibram no ciclo natural da natureza. Assim o Criador o predispôs, assim será cumprido!

 

Alma Lusa

 

in "Eram Verdes os Campos"

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